• Document: A aceleração contemporânea: tempo-mundo e espaço-mundo
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ANEXO 5 – Tema 2014: Do tempo que temos, que uso fazemos? (texto retirado www.redesagrado.com/sagrado-coracao- sp/imagens/.../20129910.pdf) A aceleração contemporânea: tempo-mundo e espaço-mundo Milton Santos 1. A ACELERAÇÃO CONTEMPORÂNEA Aceleração são momentos culminantes na História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para criar o novo. A marcha do tempo, de que falava Michelet no prefácio à sua História do século XIX, é marcada por essas grandes perturbações aparentemente sem sentido. Daí, a cada época, malgrado a certeza de que se atingiu um patamar definitivo, as reações de admiração ou de medo diante do inusitado e a dificuldade para entender os novos esquemas e para encontrar um novo sistema de conceitos que expressem a nova ordem em gestação. A aceleração contemporânea não escapa a esse fato. Ela é tanto mais suscetível de ser um objeto da construção de metáforas porque, para repetir Jacques Attali, vivemos plenamente a época dos signos, após havermos vivido o tempo dos deuses, o tempo do corpo e o tempo das máquinas. Os símbolos baralham, porque tomam lugar das coisas verdadeiras. A primeira tentação é a de, outra vez, nos tornarmos, como na aceleração precedente, adoradores, dubitativos ou firmes, da velocidade. Esta última espantou os que viram surgir a estrada de ferro e o navio a vapor e, depois, viveram o fim do século XIX e o já longínquo começo do século XX, com a invenção e a difusão do automóvel, do avião, do telégrafo sem fio e do cabo submarino, do telefone e do rádio. Mas, por que limitar a aceleração à velocidade stricto-sensu? A aceleração contemporânea impôs novos ritmos ao deslocamento dos corpos e ao transporte das ideias, mas, também, acrescentou novos itens à história. Junto com uma nova evolução das potências e dos rendimentos, com o uso de novos materiais e de novas formas de energia, o domínio mais completo do espectro eletromagnético, a expansão demográfica (a população mundial triplica entre 1650 e 1900, e triplica de novo entre 1900 e 1984), a expansão urbana e a explosão do consumo, o crescimento exponencial do número de objetos e do arsenal de palavras. Mas, sobretudo, causa próxima ou remota de tudo isso, a evolução do conhecimento, maravilha do nosso tempo que ilumina ou ensombrece todas as facetas do acontecer. A aceleração contemporânea é, por isso mesmo, um resultado também da banalização da invenção, do perecimento prematuro dos engenhos e de sua sucessão alucinante. São, na verdade, acelerações superpostas, concomitantes, as que hoje assistimos. Daí a sensação de um presente que foge. Esse efêmero não é uma criação exclusiva da velocidade, mas de outra vertigem, trazida com o império da imagem e a forma como, através da engenharia das comunicações, a serviço da mídia, ela é engendrada, um arranjo deliberadamente destinado a impedir que se imponha a ideia de duração e a lógica da sucessão. 2. TEMPO-MUNDO, ESPAÇO-MUNDO Pode-se imaginar um tempo-mundo cujo outro seria um espaço-mundo? Um espaço- mundo resultante do deslocamento do tempo-mundo? Para isso, seria necessário que esse tempo-mundo realmente existisse. E o mundo também. Ora, nós sabemos que o mundo só o é para os outros, mas não para ele próprio, pois só existe como latência. Há, hoje, um relógio mundial, fruto do progresso técnico, mas o tempo-mundo é abstrato, exceto como 1 relação. Temos, sem dúvida, um tempo universal, tempo despótico, instrumento de medida hegemônico que comanda o tempo dos outros. Esse tempo despótico é responsável por temporalidades hierárquicas, conflitantes, mas convergentes. Nesse sentido todos os tempos são globais, mas não há tempo mundial. O espaço se globaliza, mas não é mundial como um todo senão como metáfora. Todos os lugares são mundiais, mas não há um espaço mundial. Quem se globaliza, mesmo, são as pessoas e os lugares. O que existe mesmo são temporalidades hegemônicas e temporalidades não-hegemônicas ou hegemonizadas. As primeiras são o vetor da ação dos agentes hegemônicos da economia, da política e da cultura, da sociedade enfim. Os outros agentes sociais, hegemonizados pelos primeiros, devem se contentar de tempos mais lentos. Quanto ao espaço, ele também se adapta à nova era. Atualizar-se é sinônimo de adotar os componentes que fazem de uma determinada fração do território o lócus de atividades de produção e de troca de alto nível e por isso consideradas mundiais. Esses lugares são espaços hegemônicos em que se instalam as forças que regulam a ação em outros lugares. 3. TECNO-ESFERA E PSICO-ESFERA Assim, refeito, o espaço pode ser entrevisto através da tecno-esfera e da psico-esfera, que, juntos, formam o meio técnico-científico. A tec

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